
Eu paguei, quero vaiar. O que era de se esperar de uma parcela representativa da população que em nenhum momento tomou o conhecimento do Brasil em que vive? O que era preciso?
Eu paguei, quero vaiar. O que era de se esperar de uma parcela representativa da população que em nenhum momento tomou o conhecimento do Brasil em que vive? O que era preciso? Era preciso pagar o ingresso. Esta parte da população que tem boas casas, mais de dois carros na garagem, filhos estudando nas melhores escolas particulares, que faz suas refeições nos melhores restaurantes, bebe vinho nacional ou francês, tira férias em locais paradisíacos no mínimo duas vezes por ano. Era preciso pagar. É, pagar um ingresso no Maracanã para assistir o espetáculo da abertura dos jogos Pan-Americanos. Esta parcela da população que até a abertura dos jogos, em nenhum momento, pelo jeito, viveu neste país do mensalão, da máfia das sanguessugas, das ambulâncias, das propinas do Zé com os bicheiros, das empreiteiras e suas obras inacabadas e os bois do Renan Calheiros e do Roriz. Estas pessoas viveram até agora num mundo à parte. Não participaram de nenhuma das manifestações que foram feitas até o momento, organizadas espontaneamente pelas pessoas de bem e trabalhadores que foram às ruas, à Internet, aos Correios, pedindo, ou melhor, exigindo, desde o primeiro escândalo, que os culpados fossem punidos e que o Congresso Nacional criasse uma lei contra a corrupção e trouxesse a moral e a ética para o meio político.
É, os senhores não contribuíram, não participaram, por quê? Não tinham que pagar ingresso. Tinha que ser um evento pago, tinha que ser um espetáculo, onde nosso país está mostrando para o mundo que apesar de tudo somos capazes de organizar um evento como o Pan. A vaia a todas as mazelas do Brasil tinha que ser lá, onde dezenas de filhos de trabalhadores que se dedicaram por muito tempo estão vendo a possibilidade de trazer uma medalha, mas também um tênis. É senhores, um par de tênis, que seus filhos, muitas vezes, não gostam ou se cansam. Mas nossos atletas, muitas vezes, correm descalços, pulam descalços para fugir da criminalidade, do ócio, das drogas. É, a vaia tinha mesmo que ser lá, no Maracanã, não poderia ter sido na Cinelândia, em Copacabana, na Avenida Paulista, na Praça de Bagateli, Garganta Maldita, Esquina Democrática ou, como várias manifestações, na Esplanada dos Ministérios.
Então, espero os senhores nas próximas manifestações pela moralidade, pela ética, pelo veto à emenda 3. Ou agora vocês só irão se manifestar em dezembro, na final do Brasileirão ou no Cirque de Soleil? Ou podem começar logo, mandando uma carta, um e-mail ou telefonema para os seus deputados e senadores, dizendo: chega, sou brasileiro, por isso não aceito mais a desonestidade e a corrupção! Não fiquem só na vaia do ingresso pago, cobrem dos grandes personagens do Congresso Nacional, cobrem a nossa medalha de ouro de um país onde todos tenham o direito a participar de um espetáculo que é o crescimento econômico e a geração de oportunidades iguais para todos.
Clàudio Janta, presidente da Força Sindical-RS
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