
Vai longe o tempo em que a palavra tinha o valor de um documento. Sem precisar de cheque ou cartão, o cidadão anotava em uma caderneta o que comprava na venda da esquina e pagava o mercador com pontualidade.
Vai longe o tempo em que a palavra tinha o valor de um documento. Sem precisar de cheque ou cartão, o cidadão anotava em uma caderneta o que comprava na venda da esquina e pagava o mercador com pontualidade. A palavra era sinônimo de honra e representava o maior bem de uma pessoa. O nome, a palavra e a honra eram, portanto, o grande patrimônio pessoal do cidadão. Até na política essa noção vigorava e sempre que alguém a perdia era muito difícil prosperar na árdua tarefa de compor interesses, mesmo quando contrários. O Rio Grande do Sul escreveu uma das páginas épicas da história nacional ao levar ao extremo esse conceito, que levava os homens a lavar a honra manchada com sangue. Os gaúchos resistiram por dez anos ao exército imperial, lutando sem farda e enfrentando o poderoso adversário com táticas de guerrilha. Tudo em nome da honra.
Hoje, em meio à crise em que o governo estadual mergulhou, nos perguntamos onde está o sentimento de honradez do sul-riograndense, que se orgulha de ser independente e legalista. Olhando ao redor, notamos a ausência de escrúpulo e a total inversão de valores, na qual o certo e o errado se confundem perigosamente. Inevitavelmente, lembramos de Goebels, chefe nazista que dizia que uma mentira dita mil vezes viraria verdade e do poeta urbano Renato Russo, quando questionava o por quê do mais forte ser quem sabe mentir, na música Será, popularizada pelo grupo Legião Urbana. Essa inversão está por trás da formação das chamadas máfias dos Sanguessugas, Vampiros, Ambulâncias e outros, para quem a vida humana ocupa lugar secundário, já que a prioridade está ânsia de poder e dinheiro. A corrupção descoberta no Detran é outra prova do desprezo à vida, pois os bilhões de reais desviados dos cofres públicos são os recursos que fazem falta às campanhas educativas e à proteção do ser humano, noutra zombaria à condição de penúria em que vive a população, que almeja mais que dos programas assistencialistas que a mantém cativa da situação.
Por que não pensar seriamente no financiamento público das campanhas eleitorais, ao invés da condenável utilização de biombos e fachadas, que transformam empresas estatais e autarquias em anteparo de partidos políticos?
Saudosismo à parte, resgatar valores e bons exemplos do passado nunca fizeram mal a ninguém, nem àqueles que ainda não sabem direito o que fazer em meio à confusão. Muitas vezes o que parece moderno beira antiquado e vice-versa. Por mais que a tecnologia avance, ela nunca suprirá a carência de valores como caráter, decência e sensatez, que não podem ser digitalizados, assim como o fio de bigode empenhado pelo homem de palavra. Especialmente quando falamos de homens públicos.
CLÀUDIO JANTA – presidente da Força Sindical-RS
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